E SE CONSEGUÍSSEMOS PREVER COMO A PEDRA VAI ENVELHECER?

E SE CONSEGUÍSSEMOS PREVER COMO A PEDRA VAI ENVELHECER?

A pedra natural é sinónimo de durabilidade. Está presente em edifícios e monumentos que atravessaram séculos e continua a ser um dos materiais mais valorizados na arquitetura e na construção. Mas a pedra também envelhece. A água, as variações de temperatura, os sais, os microrganismos, a radiação solar e a ação direta e indireta do Homem deixam marcas e podem alterar o seu desempenho e a sua aparência estética ao longo do tempo.

Antecipar o envelhecimento

E se fosse possível antecipar esse envelhecimento, essa alteração estética e estrutural? E se pudéssemos, ao mesmo tempo, reinventar a forma de proteger a pedra, com soluções mais sustentáveis e inovadoras?

Foi esse o desafio assumido pela Universidade de Évora, em colaboração com a ALS STONES e a SOLANCIS, no âmbito da Agenda Sustainable Stone by Portugal. A atividade «Ageing – Anticipating the Stone Behavior» juntou ciência e conhecimento industrial para estudar o comportamento da pedra ao longo do tempo e encontrar novas soluções para aumentar a sua proteção e durabilidade, culminando na sua valorização socioeconómica.

Uma proteção invisível e mais sustentável

Uma das respostas encontradas passa por uma nova geração de revestimentos «verdes». Desenvolvidos a partir de compostos de origem natural, estes revestimentos foram pensados para criar uma espécie de proteção invisível sobre a pedra: ajudam a repelir a água e apresentam potencial para dificultar o desenvolvimento de microrganismos, dois dos principais fatores que contribuem para a sua degradação física, química e estética.

As soluções foram testadas em diferentes rochas, incluindo mármore, calcário e pedra granitoide, com resultados promissores ao nível da proteção contra a água e da limitação da colonização por fungos e bactérias. Foram também desenvolvidas soluções híbridas com nanopartículas inorgânicas, procurando combinar maior proteção com materiais e processos mais sustentáveis.

Acelerar os processos

Mas talvez o resultado mais surpreendente seja a possibilidade de «acelerar os processos». A equipa desenvolveu um modelo de envelhecimento acelerado que permite reproduzir fielmente, em apenas dois meses de ensaios, a deterioração equivalente a aproximadamente um ano de exposição natural. Isto significa que não é necessário esperar anos para começar a perceber como determinado tipo de pedra poderá reagir às condições a que ficará exposto.

A investigação foi ainda mais longe, estudando o comportamento da pedra natural perante diferentes condições ambientais e considerando cenários de alterações climáticas para os próximos 80 anos, com base no relatório mais atualizado do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). Num contexto em que os edifícios terão de responder a temperaturas e fenómenos climáticos cada vez mais exigentes, conhecer antecipadamente o desempenho dos materiais pode tornar-se uma importante vantagem competitiva.

Decisões mais informadas, do projeto ao cliente final

Para uma empresa de pedra natural, esta informação pode ajudar a responder a uma questão essencial: qual é a pedra mais adequada para determinado projeto, localização ou clima? Para arquitetos, engenheiros e prescritores, significa poder tomar decisões mais informadas. E para o cliente final, pode significar maior confiança na durabilidade do material escolhido.

O próximo passo é levar esta informação para o mundo digital. Os critérios desenvolvidos para prever o envelhecimento estão a ser incorporados em modelos BIM, permitindo associar à pedra informação sobre o seu comportamento e durabilidade e disponibilizá-la ao longo do ciclo de vida de um edifício.

Do laboratório às empresas

As tecnologias encontram-se ainda numa fase de desenvolvimento, entre TRL 4 e 5, mas o caminho para a sua valorização já está identificado: testar as soluções em ambiente real, avançar para pilotos industriais, otimizar os revestimentos, reforçar a proteção da propriedade intelectual e aproximar estas tecnologias das empresas.

No fundo, trata-se de juntar duas ideias: proteger melhor a pedra e conhecê-la melhor. Porque escolher pedra natural para construir o futuro não depende apenas de saber como ela se comporta hoje. Depende também de conseguirmos antecipar como se comportará amanhã.

FICHA TÉCNICA 

PPS: PPS5 – New Processes for Stone Industry Digitalization

Atividade: A3.1 – Ageing – Anticipating the Stone Behavior

Coordenação: Universidade de Évora

Parceiros: ALS STONES · SOLANCIS

Maturidade: TRL 4–5 — tecnologias em desenvolvimento

Resultados: Revestimentos «verdes» de origem natural · Modelo de envelhecimento acelerado (2 meses de ensaio ≈ 1 ano de exposição natural) · Cenários climáticos a 80 anos · Integração em modelos BIM

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